Mais uma vez, a população mostrou ser independente de grupos, gurus e partidos

Manifestação do dia 26

Ao longo de vários dias de organização da manifestação que ocorreu no último domingo (26), o cenário político no país foi abalado por diversos rumores, entre os quais, o de que o presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, teria feito convocações para o ato, e que isso teria como propósito pedir o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF).

Esses rumores foram repercutidos por figuras aliadas ao governo, como a deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP) e o Movimento Brasil Livre (MBL) através dos seus líderes, além de outros parlamentares, porém, de forma mais tímida. Quanto à grande mídia, então, não é necessário dizer que colaborou para isso.


A base de apoio do governo estaria “rachada” por causa da suposta divisão entre apoiadores e contrários às manifestações do dia 26, essa foi a informação largamente divulgada pela imprensa no decorrer da semana. Também segundo a grande mídia, não haveria sucesso na organização dos protestos e às ruas poderiam ficar vazias, o que seria péssimo para a imagem do governo.

Um grito de independência

Chegou o domingo, dia 26 de maio de 2019 e os apoiadores do governo Bolsonaro mais uma vez foram às ruas. A pauta comum dos protestos, como informado aqui no Opinião Crítica, foi demonstrada através de faixas, cartazes, camisas e carros de som: reforma da Previdência, pacote anticrime, MP870 e CPI da Lava Toga.


Às ruas não ficaram vazias. Todos os estados do país registraram atos em favor do governo. Multidões ocuparam vários quarteirões nos principais redutos eleitorais do país, como São Paulo, Rio de Janeiro e Recife, no Nordeste.

Manifestação dia 26
Manifestação do dia 26 em São Paulo, Avenida Paulista. Reprodução: EBC/Reuters/Nacho Doce/Direitos reservados

Uma coisa ficou muito nítida nessas manifestações, servindo de recado para os políticos do país: às mudanças que vêm ocorrendo no Brasil desde 2014 (a primeira grande derrota eleitoral da esquerda), culminando na vitória de Jair Bolsonaro para a presidência da República, são frutos da população brasileira em geral e não de grupos, partidos ou “gurus”.

Manifestações do dia 26 - Brasília
Manifestações do dia 26 em Brasília, DF – Reprodução: Google

Durante esses anos, grupos como o MBL e o Vem Pra Rua Brasil, além de figuras como a do escritor Olavo de Carvalho, assumiram para si – ainda que não explicitamente – os “direitos autorais” das mudanças ocorridas no Brasil no âmbito político e cultural. Com isso, criou-se a ideia de dependência da população dessas vozes de liderança, sem às quais o governo estaria “sem força”.

Ora, evidentemente não estamos dizendo que tais figuras não tiveram/têm parte nas mudanças ocorridas desde então, mas sim que elas não detém os “direitos autorais” delas e não pautam o que a imensa maioria da população pensa.
Avenida Litorânea, São Luiz. Foto: Douglas Pinto/TV Mirante
Aparentemente, o erro do MBL nesses últimos dias, assim como o da deputada Janaína Paschoal, foi justamente menosprezar a independência da população no tocante à leitura política do país, sendo capaz de tomar suas próprias decisões. Acostumados em liderar e serem ouvidos, sempre, ficaram frustrados ao perceberem que dessa vez não foram ouvidos.

Tal atitude da população reforça o que já dissemos aqui: movimentos e personalidades apenas personificaram os anseios de mudança e ideais que a população já possuía. Não inventaram a roda, mas apenas a fizeram girar com a força da população.

O povo que foi às ruas neste domingo é o mesmo que saiu às ruas em junho de 2013 e 2014, quando a maioria das figuras de liderança que existem hoje eram completamente anônimas, salvo em seus pequenos círculos de influência, sem impacto algum a nível nacional.
Manifestantes cantam hino nacional na Praça Vera Arruda — Foto: Magda Ataíde/G1
Diante do atual contexto de “travamento” e barganha do Congresso Nacional para fazer avançar medidas importantes para o governo eleito pelo povo, esse mesmo povo saiu às ruas para pressionar, mesmo sem o apoio declarado dos movimentos e figuras que até então contribuíram para que Bolsonaro chegasse ao poder.
A população demonstrou ter poder de articulação, independência e liberdade de decisão. Demonstrou não estar cativa ao pensamento de uns e outros, nem depender desses para se manifestar. Com isso, a manifestação desse domingo foi um sonoro grito de independência que serve como recado para os que pensavam ter o domínio das “massas”, quer sejam apoiadores ou não.

Por: Will R. Filho